O assunto da moda agora é Belo Monte, a nova usina hidrelétrica que pretende-se construir. Esta usina será localizada no município de Vitória do Xingú – Pará, no rio Xingú. A construção desta usina já é objeto de celeuma a mais de 20 anos.
Em 1989 em Altamira – Pará – ocorreu o primeiro encontro de povos indígenas do Xingú e estavam presentes famosas lideranças como Paulinho Paiakan e Raoni. Neste encontro, que contava com 650 índios dentre os mais de três mil presentes, fizeram frente e mostraram-se relutantes ao projeto da usina de Kararaô – rebatizada mais tarde para Belo Monte. Esta era a primeira de 5 usinas hidrelétricas da região. Desde então o projeto tem passado de governo em governo para ser resolvido.
A questão toda girava em volta do impacto ambiental. Mas hoje uma nova questão sobre Belo Monte é trazido à baila, a nossa matriz energética. O primeiro problema é fácil de entender. Para que uma usina deste tipo funcione é necessário converter a energia potencial de uma queda dágua em energia cinética das pás das turbinas que é convertida em energia elétrica. Para que a queda dágua exista é necessário represar o rio no qual deseja-se instalar a usina. Ao represar o rio produz-se um lago artificial que é resultado do alagamento de uma área. É a partir do alagamento que o problema ambiental acontece.
Posso enumerar alguns destes problemas:
- Ao alagar uma área estamos na verdade inundando áreas cultiváveis e florestas. Por conta disso várias espécies cujo habitat era a área alagada migram para outro canto ou morrem. Se migrarem, podem provocar um desequilíbrio no ecossistema novo em que se encontram; No caso de Belo Monte serão 50 mil hectares da zona da mata.
- As espécies que não conseguem migrar morrem, supondo que não sejam aquáticas;
- O desvio do curso do rio promove desequilíbrios nos ciclos de cheia e vazante do mesmo e impactos na pesca por conta da sobrevivência das espécies que nele vivem, como os ciclos de migração e reprodução dos peixes;
- Existe também os resíduos de manutenção da usina;
- Recursos presentes no subsolo das áreas inundadas ficam inutilizáveis;
- Sítios arqueológicos ou históricos ficam submersos, prejudicando muito o entendimento histórico;
- Populações são obrigadas a mudar-se e suas cidades e vilarejos antigos são submergidos.
Isso ocorreu em 1977 com a represa de Sobradinho. Ocorreu também com Itaipú e muitas outras hidrelétricas. Belo Monte não será diferente neste aspecto. O problema de Belo Monte é que sua capacidade de geração de energia elétrica instalada será de 11233 MW, mas a média produzida ficará na casa de 4500 MW devido a grande variação da época de cheia e seca do rio Xingú. Existe a possibilidade de em época de seca a capacidade cair abaixo dos 1000 MW. Será que realmente interessa uma usina com tamanha oscilação na sua capacidade produtiva? Para muitos isso já é um impeditivo a sua construção ou, no mínimo, a viabilidade econômica desta empreitada.
É certo que nossa matriz é diversificada, mas está longe de ser limpa. 32165 MW de um total de 238757 MW dizem respeito a geração hidráulica, isso corresponde a 14% do total de energia . Não parece muito se comparado aos quase 45% vindo do Petróleo e aos 18% de recursos renováveis, mas tem consequências na transmissão da energia.
Por depender de rios, a fonte geradora fica muito afastada dos consumidores desta energia e isso obriga um grande investimento nas longas linhas de transmissão. Estas cruzam vastas extensões de terra e são pontos de falha na cadeia de geração e entrega de energia. Quanto mais longa a linha, mais locais para falhar existem e mais longa a distância – potencialmente falando – a ser percorrida até o ponto de falha, impactando diretamente o tempo de recuperação do sistema. O recente apagão de 2009 mostrou como nosso sistema é frágil.
Nossas linhas são organizadas em anéis como podemos ver em gravura do ONS – Operador Nacional do Sistema – no link abaixo:
http://www.ons.com.br/images/conheca_sistema/mapas_g/integracao_eletroenergetica_g.gif
Isso não foi suficiente para impedir o apagão, na verdade foi a falha em um dos ramos de transmissão que promoveu o blackout. Não estou com isso criticando e dizendo que o nosso modelo é errado. Digo sim que na verdade, como qualquer modelo, o nosso tem falhas e precisamos arrumar uma forma de resolvê-las ou contorná-las. O investimento em hidrelétricas definitivamente não é uma destas formas. Mas então o que fazer? Existem algumas alternativas…
- Parque Eólico – está na moda, mas está longe de ser uma energia limpa. Devemos lembrar que para que a turbina gire ela precisa absorver energia cinética das correntes de ar que passam por suas pás. É ai que ocorre o impacto ambiental. Uma ou outra turbina não arrancam tanta energia da corrente de ar, mas um parque inteiro pode fazer com que a corrente de ar vagarosamente perca força e deixe de conduzir humidade de um extremo a outro de seu trajeto entre outros impactos. O que seria de um ecossistema se uma de suas correntes de ar principal deixasse de funcionar?
- Usina Geotérmica – ainda é bem restrita, limita-se a algumas regiões de fronteira de placas tectônicas ou de atividade térmica. É sustentável, mas seus impactos também devem ser medidos pois liberam gases sulfurosos na atmosfera. Também podem produzir o resfriamento do local onde se encontra se a fonte de calor tiver uma extração maior do que a capacidade de repor energia térmica. Uma forma alternativa é a usina termo-nuclear que usa o calor do decaimento de isótopos radioativos. Os impactos ambientais são o lixo nuclear que, se devidamente armazenado, não produz impacto algum a natureza e no caso de a usina falhar e ocorrer o que aconteceu em Chernobyl.
- Usinas termo-solares – Focalizam a luz do sol para aquecer água, esta vira vapor e movimenta uma turbina, produzindo energia elétrica. Seu impacto ambiental é zero e é uma forma sustentável de produzir energia elétrica. Já existem algumas funcionando em Portugal e na Espanha e suas capacidades geradoras estão na casa das dezenas de megawatts, mas já está em construção uma de 280 MW em Phoenix. Evidentemente não chegam nem perto da capacidade geradora de uma hidrelétrica, mas várias delas podem ser construídas em locais mais perto dos centros consumidores, reduzindo em muito o custo para o consumidor, pois a parte do preço referente a transmissão será bem reduzida. O custo de manutenção de tais usinas é inferior ao de uma usina a óleo ou gás.
- Usinas maremotrizes – Usam a força das marés para gerar energia. Recaem sobre o mesmo problema da energia eólica.
- Microgeração – Destina-se a geração quase individual, de pequenas coletividades como prédios ou mesmo pequenas cidades ou comunidades, de sua energia consumida. Seus benefícios são enormes, pois via de regra as formas de gerar são limpas. Dentro da categoria de microgeração estão as turbinas eólicas, sistemas fotovoltáicos, células de combustível microbial (MFC) ou biológicas, bombas de calor geotérmicas, ou micro-CHP.
- Energia Solar – Até o momento, sua geração é cara demais e ineficiente. Atualmente é vista como uma forma suplementar de fornecimento energético. De todas as formas atualmente possíveis é a mais limpa.
Nosso potencial energético é finito e deve ser bem aproveitado. Nossa energia elétrica é cara por vários motivos, entre eles o custo com linhas de transmissão e os impostos. Já que os últimos são, pelo menos por enquanto, inalteráveis nos sobra alterar a matriz para uma energia mais limpa. A aposta da vez são as usinas termo-solares. Uma usina de tamanho médio consegue alimentar uma cidade de 60.000 habitantes. Não parece muito, mas se for pensado como uma instalação para o interior conseguiremos com algumas abastecer muitos pequenos centros urbanos e assim nos aproximando da microgeração de energia.
