Seguindo com o que fora escrito no artigo anterior, A evolução dos sistemas de nossa economia – O Feudalismo…
Agora saindo um pouco da parte puramente histórica e entrando na parte filosófico-política.
Nesta época, John Locke, que era defensor contumaz do Metalismo, afirmou:
“a falta de moeda acarretará, não obstante, as seguintes desditosas conseqüências: primeira, preços muito baixos para nossos próprios produtos; segunda, preços muito altos para todos os produtos estrangeiros, e ambas as coisas nos trarão a pobreza já que o comerciante quer obter por suas mercadorias o mesmo aqui que em qualquer outra parte, o mesmo número de onças de prata e isto nos obriga a pagar o dobro do valor dos demais países, os quais dispõem de maior abundância de dinheiro.”
Era claro que a menção a falta de moeda dizia respeito a situação de crise, muito comum aos nossos dias de hoje, lembremos da Crise de 1929, Crise do México, Crise dos Tigres Asiáticos, Crise da Rússia, Crise da Argentina, Crise do Subprime,…
Se um país tem muito dinheiro em circulação os seus preços sobem, se tem pouco, seus preços caem. Além disso, Locke pregava que em situações de muito dinheiro em circulação seria mais caro comprar produtos nacionais e mais barato comprar produtos importados pois, em tese, o produto importado teria sido produzido por um país com uma menor quantidade de moeda em circulação do que a do comprador. Na tese de Locke, o país venderia cada vez mais caro e gastaria cada vez menos.
O lado ruim da tese de Locke era que se um ganho de um grama de ouro ou prata geraria um círculo virtuoso, a perda de um grama traria o efeito inverso. Esta perda era obtida por meio da importação. E então, importar, era crime. Mas aquí reside o principal erro de Locke, como pensar em apenas exportar sem haver a contrapartida, que é a importação? Era uma assimetria descabida.
Desejava-se exportar – sem importar – para que o ouro e a prata fossem acumulados. Nestas condições era muito difícil. Se o comércio internacional era extremamente complicado se for seguir a risca a hipótese de Locke, só havia então duas formas de acumulação metálica: minas e saques.
Mas na parte de comércio havia uma solução de contorno. A hipótese de Locke implicava em um jogo de perde-ganha que seria contornado se o comércio entre uma Colônia e sua Metrópole fosse forçosamente representada pela parte que Perde e pela parte que Ganha, respectivamente. Havia agora a necessidade de expandir a base monetária, e sabia-se como contornar o problema do comércio. Surge o protecionismo e a colonização.
Havia então três pilares:
- Importar é crime;
- Só se aumenta o dinheiro circulante por meio de mais minas, comércio e saques; e
- As transações comerciais são jogos de ganha-perde.
Começa então a fase de colonização, onde a colonia sempre perderia no comércio – exclusivo – com a metrópole e a responsabilidade atribuída a colônia de fornecer ouro e prata.
Como visto nos parágrafos anteriores, a teoria de John Locke era furada. Adam Smith e David Hume argumentaram simplesmente que se os produtos de um país A, com muito dinheiro, ficam mais e mais caros, os compradores de um país B compram cada vez menos pois estes, com menos dinheiro circulante ou mesmo com uma quantidade fixa de capital, teria menos condições de pagar o preço pedido pelo país A e se veria obrigado a reduzir a quantidade comprada. Logo, importar não era tão ruim. Um país com pouco ouro e prata – o que justifica seus preços baixos – seria capaz de exportar mais, e isso recuperaria os estoques de capital. Logo, John Locke estava errado. Não havia um ciclo perpétuo virtuoso e um outro trágico.
Outro ponto que Adam Smith atacava era a questão protecionista, não só pelo aspecto ”importar = crise”, mas também pela ineficiência atual econômica. Para Adam Smith importar faria sentido se cada país produzisse aquilo que ele tem mais eficiência e importasse o que produzia mais ineficientemente, isso geraria um jogo de ganha-ganha.
A burguesia, inspirada pelos ideais de Adam Smith, entre outros, fica insatisfeita com o controle protecionista do Rei e em 1789 surge a Revolução Francesa, um dos divórcios mais violentos da história. Burguesia e Rei se divorciaram de modo sangrento. O clamor vinha do liberalismo que pregava que o Estado deveria se desvincular das transações comerciais, o não intervencionismo. O fiel da balança, que outrora apontava para o extremo do protecionismo, agora foi para o extremo oposto.
Adam Smith defendeu os princípios do liberalismo, a saber:
- O Bem Estar de uma nação é definido como a sua produção anual per capita;
- A Causa das riquezas de uma nação é o trabalho humano;
- Livre iniciativa;
- Especialização do trabalho como aumento de produtividade;
- O Bem Estar econômico, o mercado operando desreguladamente tenderia a um equilíbrio que maximizaria o bem estar econômico devido aos atos racionais e posturas egoístas dos agentes econômicos, como que se uma “Mão Invisível” os guiasse para este equilíbrio.
Porém, Adam Smith com a ideia liberalista posicionou-se no lugar radicalmente oposto ao protecionismo, tão nocivo quanto o protecionismo. Deste ideário surge também a teoria das vantagens absolutas, que irá inspirar David Ricardo mais tarde. Fundamentalmente a iniciativa privada deveria ficar livre de cabrestos do estado para empreender e se desenvolver. A concorrência entre os empreendedores promoveria a auto-regulação do mercado e isso traria também como efeitos colaterais positivos a inovação tecnológica necessária a produção de bens melhores e a queda de preço e que o crescimento econômico promoveria, em conjunto com a divisão do trabalho, o desenvolvimento social e o bem estar. Não foi bem assim que aconteceu, basta compreender a conjunta história.
Antes da revolução industrial havia o comércio artesanal, no qual os artesãos dominavam todas as etapas do processo produtivo. Havia uma escala reduzida de produção e máquinas bem simples, porém nem sempre eram utilizadas. Os trabalhadores começaram a se organizar em pequenos grupos para – em alguns casos – separar o trabalho entre eles, fosse isso uma divisão de etapas produtivas ou de produtos a serem produzidos.
Porém o capital não estava com os trabalhadores e sim com a burguesia que, financiando os pensadores renascentistas e cientistas, potencializaram a inovação tecnológica conjugando a energia a vapor ás máquinas simples já existentes. A burguesia começa a adquirir estas máquinas novas e a empregar os então artesãos que, agora, não mais possuem domínio do lucro, do processo de fabricação e da autonomia de suas vidas e trabalho. Novamente uma nova relação laboral começa a ser estabelecida. Este movimento ganhou escala e rapidamente os artesãos estavam trabalhando em fábricas e indústrias, primeiramente as têxteis e de agricultura e depois outros setores se beneficiaram da maquinofatura.
Era perfeitamente cabível pensar que se os freios do estado fossem soltos, os empresários iriam acelerar de modo descontrolado para recuperar o tempo perdido enquanto estiveram sob o controle do estado e, além disso, com a superação da antiga forma artesanal de trabalho pela forma da maquinofatura os artesãos estavam precisando de renda, e para tal precisariam trabalhar. Quem empregaria? Os novos industriais da revolução e, como sabiam que esta revolução provera um desemprego estrutural e que o estado não regularia nada e nem interviria em nada, eram ofertadas posições de trabalho com condições desumanas no que tange a jornada de trabalho e ao salário, nova forma de pagamento e de laço laboral (o trabalho assalariado).
Outro efeito colateral da revolução industrial e do pensamento de Adam Smith foi o êxodo rural. Como os artífices antes localizavam-se em campos e agora o emprego era ofertado pelos industriais que estavam nas cidades, isso promoveu um influxo de pessoas nos grandes centros urbanos. Sem regulação as pessoas começaram a ocupar todo e qualquer espaço disponível nos centros urbanos e isso levou ao inchaço das grandes cidades e ocupação desordenada que trouxe graves problemas sanitários que repercutiram na saúde dos habitantes, tanto decorrentes do despejo de cada vez mais resíduos da crescente atividade industrial como do não tratamento dos despejos de resíduos humanos.
Em sua inocência, Adam Smith quis crer que o efeito do enriquecimento individual traria enriquecimento coletivo. Isto provou-se equivocado visto que ocorreu durante períodos pretéritos, e na a revolução industrial também, um deslocamento do eixo de concentração de renda que se perpetuou e agravou ainda mais a separação social.
A Teoria das Vantagens Absolutas de Adam Smith
A teoria das vantagens absolutas prega que um país deve se especializar naquilo que produz a custo mais baixo e trocar este excedente por produtos que custem menos em outros países. Aqui já se começa a delinear, mais maduramente, o comércio internacional.
Evoluindo esta teoria, o economista David Ricardo, postula outra teoria.
A Teoria dos Custos Comparativos, ou Teoria das Vantagens Comparativas
Esta teoria dizia que o comércio internacional será vantajoso para ambos os países mesmo que um país A produza a custos mais baixos que a nação B desde que, em termos relativos, as produtividades sejam diferentes.
Tanto a teoria das vantagens absolutas como a de vantagens comparativas estabelecem um jogo de ganha-ganha. A especialização internacional é mutuamente vantajosa desde que as partes envolvidas no comércio internacional foquem seus esforços na produção dos bens que sua eficiência seja comparativamente maior. Isso, além do aspecto financeiro positivo, também lança luz sobre o uso racional dos recursos disponíveis.