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Continuando o artigo anterior, Teoria dos Jogos – Segunda Parte

O exemplo agora é com jogos de soma zero, mas o que é isso?  O jogo de soma zero é assim definido se você somar as vitórias e derrotas de um jogo, dado que derrotas são negativas e vitórias positivas, será encontrado uma soma 0 para cada conjunto de estratégias escolhidas.  São exemplos de jogos deste tipo, o Poker, Par ou Ímpar, Cara ou Coroa, Combinação de Moedas…

A Combinação de Moedas

Imaginemos que duas pessoas, A e B, desejam disputar uma emocionante partida de Combinação de Moedas.  Assim, as regras deste jogo são:

  • A e B escolhem quem será igual e quem será diferente.  Vamos imaginar que A escolha igual, e B diferente; e
  • Se as moedas estiverem com a mesma face voltada para cima, A ganha a moeda de B.  Caso contrário, B ganha a moeda de A.

A matriz de payoff fica, então, 

Payoffs
B
CaraCoroa
ACara(1,-1)(-1,1)
Coroa(-1,1)(1,-1)

A Competição de Preços

Este é outro jogo de soma zero.  Imaginemos duas fábricas de água mineral, a fábrica A e a fábrica B.  Estas fábricas tem um custo fixo de R$ 5000,00, independente se vendem ou não.  Estas companhias disputam acirradamente o mesmo mercado e devem escolher entre praticar um preço mais alto, R$ 2,00 por garrafa, ou um preço mais baixo, R$ 1,00 por garrafa.

  • A um preço de R$ 2,00 a garrafa, 5.000 garrafas são vendidas ao mercado gerando uma receita de R$ 10.000,00;
  • A um preço de R$ 1,00 a garrafa, 10.000 garrafas são vendidas ao mercado gerando uma receita de R$ 10.000,00;
  • Se ambas as empresas praticarem o mesmo preço elas dividirão a receita igualmente entre elas;
  • Se uma empresa praticar o preço mais alto e a outra o mais baixo, a que praticou o preço mais baixo vende para todo o mercado enquanto a outra não vende nada;
  • Payoff é o lucro, que é receita menos despesa (custo fixo de R$ 5.000,00)

A matriz de payoff fica, então, 

Payoffs
B
R$ 1,00R$ 2,00
AR$ 1,00(0; 0)(R$ 5.000; -R$ 5.000)
R$ 2,00(-R$ 5.000; R$ 5.000)(0; 0)

O Par ou Ímpar

Este jogo, dois jogadores escolhem se querem ser par, ou ímpar. e mostram entre 0 dedos e 5 dedos.  Soma-se e se o resultado der par, o jogador que escolheu par ganha, se der ímpar o resultado que escolheu ímpar ganha.  Para tornar o jogo igual para ambos, vamos estipular que se sair o número 0 joga-se novamente o jogo.

A escolhe par, B escolhe ímpar.  Assim, para A ganhar, os resultados que interessam são:2, 4, 6, 8 e 10 enquanto que para B ganhar os resultados que lhe interessa são: 1, 3, 5, 7 e 9.  Observe que se o 0 não tivesse sido excluído a probabilidade de que par ganhasse seria ligeiramente maior que do ímpar.

A matriz de payoff fica, então, 

Payoffs
B (escolheu ímpar)
MãoParÍmpar
A (Escolheu par)Par(1,-1)(-1,1)
Ímpar(-1,1)(1,-1)

A solução para este tipo de jogo é a estratégia que maximiza o retorno mínimo, o payoff mínimo.  Portanto, o par de estratégias – e payoffs – que maximiza o retorno mínimo é a solução do jogo.

Estratégia mista – Se um jogador escolhe entre várias estratégias de acordo com as probabilidades específicas de cada estratégia, esta é uma estratégia mista.

Logo, o que vemos é que jogos de dois jogadores com soma zero possuem uma solução maxmin em estratégias mistas ou puras.  O maxmin pode ser resumido pela expressão popular, “dentre os males, o menor”.

Continuando o artigo anterior,Teoria dos Jogos – Primeira Parte

O primeiro exemplo clássico é o dilema dos prisioneiros.

Vamos imaginar que dois homens foram acusados de praticarem um crime, homicídio simples por exemplo e que portavam arma na cena do crime.

A pena para homicídio neste exemplo varia de 10 a 20 anos

A pena para Porte Ilegal de Arma de Fogo de Uso Permitido neste exemplo é de 2 anos.

Muito bem, ambos foram levados para a delegacia para interrogatório.  Para fins de exemplo aqui, imaginemos que os suspeitos não tenham se falado inicialmente.

Ambos podem simplesmente não confessar e imputar a culpa no outro.  Porém, se ambos confessarem é garantido a eles uma pena de 10 anos de reclusão.  Se ambos não confessarem e não colocarem a culpa no outro só receberão a pena de 2 anos.  Uma terceira situação que pode ocorrer, pelas regras do jogo, é que se um suspeito (A) confessar e imputar culpa no outro (B) sendo que este outro (B) não confessa nada.  Desta forma, A pegará pena de reclusão de 1 anos e B de 20 anos.

Desta forma, a matriz de payoffs para o problema é a seguinte

B
ConfessaNão Confessa
AConfessa(10,10)(1,20)
Não Confessa(20,1)(2,2)

Admitindo que ambos tem capacidade de pensar racionalmente, A e B irão analisar suas possibilidade.

Partindo de o que A deve fazer, A pensará:B pode confessar ou pode ficar calado.

  • Se B confessar, eu posso confessar ou não.  Se eu confessar, eu pego 10 anos na cadeia. Se eu não confessar, eu recebo 20 anos de cadeia.  Neste caso sempre é melhor que eu, A, confesse.
  • Se B ficar quieto, eu posso confessar ou não.  Se eu confessar, eu pego 1 ano de cadeia, se eu não confessar eu pego pena de 2 anos de cadeia.  Neste caso é melhor que eu, A, confesse.

Evidentemente que o prisioneiro B pensará da  mesma forma, então temos que tanto para A como para B a melhor estratégia é confessar.  Daí temos que a estratégia dominante de A e de B é confessar e que ocorre então um equilíbrio de estratégias dominantes.

Algumas premissas precisam ser traçadas para delinear o que é esperado que aconteça, a saber:

  • Ambos farão o pior possível, ou melhor dependendo do ponto de vista, para pegar a menor pena; e
  • Eles só se falarão uma vez, quando o interrogador perguntar como ele se julga.

Assumindo que ambos ajam racionalmente, o resultado deste dilema é que ambos pegarão 10 anos de cadeia.  Se ambos agirem irracionalmente, ambos pegarão 2 anos de cadeia.

Evidentemente que existem problemas intrínsecos com este dilema, ele não é real por assim dizer.  Mas modela inicialmente, de modo simplista, situações mais complicadas.  Se os prisioneiros tivessem se comunicado e coordenado suas ações os resultados poderiam ser diferentes, e isso implicaria em repetidas interações entre os prisioneiros.  Há também a questão do equilíbrio de estratégias dominantes, que não é a única forma de raciocinar sobre o cenário.

O que é a Teoria dos Jogos?  Bom, a teoria dos jogos é aquela que modela, ou tenta modelar, explicar, o comportamento de estratégicos de agentes em alguma situação na qual suas ações podem influenciar as ações de outros agentes. Ou seja, vamos imaginar uma situação: um jogo de par ou ímpar Agora vamos imaginar dois agentes disputando: agente A e agente B Vamos estipular também que só valem números postos na mão de 0 até 5, assim os resultados possíveis serão 0 até 10 pois só 2 agentes participam da situação. Se A escolher par, os resultados favoráveis a ele serão:0[1], 2, 4, 6, 8 e 10.  Por sua vez, B só pode ganhar com os resultados: 1,3,5,7 e 9.  Note que o resultado Par é levemente melhor que o ímpar já que temos 6 resultados pares contra 5 ímpares.  A Teoria dos jogos analisa o comportamento dos agentes em busca da estratégia mais vantajosa, para si ou para o todo. São situações semelhantes a estas que a Teoria dos Jogos endereça.  Mas este não é um artigo de matemática pura, na verdade é uma tentativa de simplificar o entendimento das aplicações de teoria dos jogos em contextos econômicos.  As aplicações de teoria dos jogos são as mais diversas.  Tentarei abordar os diversos jogos e estratégias Mas, o que é um jogo? Bom, um jogo é cenário com objetivos e regras para atingir os objetivos.  Mas não é só isso, um jogo, além das regras, precisa para ser jogado de 3 elementos, a saber:

  • Jogadores;
  • Estratégias; e
  • Recompensas, ou payoffs.

Com estes três elementos é possível tentar prever o comportamento de um jogador, que estratégia lhe é mais vantajosa dado que ao adotar uma estratégia o seu jogador oponente irá adotar alguma outra estratégia em resposta e isso terá um retorno ou recompensa, payoff, para cada um.

Definições

Jogos Cooperativos - Os jogadores podem combinar estratégias entre si.

Exemplo: Industriais, que detêm um oligopólio, combinam entre si quanto cada um irá produzir. A OPEP é um exemplo real.

Jogos Não Cooperativos - Os jogadores não podem combinar estratégias entre si.

Exemplo:Uma empresa detentora de liderança em um mercado irá visar aumentar seu lucro, porém existem as concorrentes em menor número.  A líder, devido a todo o seu investimento em inovação, não vai abrir sua estratégia para combinar com as concorrentes, portanto a líder vai fazer a escolha de sua estratégia e as outras – seguidoras – farão o melhor possível dado o que a líder escolheu fazer.  Este é o equilíbrio de Stackelberg ou Nash-Stackelberg.

Estratégia (estritamente) dominante

Imaginemos que em um jogo, um jogador A analise todas as combinações de suas estratégias usadas em resposta a seu oponente. B.  Se para diferentes estratégias de B, a estratégia S do jogador A é a que oferece melhores payoffs então esta é dita uma estratégia dominante.

Estratégia fracamente dominante

A diferença entre a estratégia estritamente dominante e a fracamente dominante é trivial de ser compreendida.  A primeira, estritamente, implica que a sua estratégia S_{i} ofereça sempre payoffs melhores que S_{ii}, enquanto que a estratégia fracamente dominante (S_{i}) nunca deve ser pior que a estratégia que é dominada (S_{ii}), ou seja, que os payoffs de S_{i} sejam maiores ou iguais os payoffs de S_{ii}.

Estratégia (estritamente) dominada

Imaginemos que em um jogo, um jogador A analise todas as combinações de suas estratégias usadas em resposta a seu oponente B.  Se para diferentes estratégias de B, a estratégia S_{ii}  do jogador A é a que oferece piores payoffs então está é dita que S_{ii} uma estratégia dominada por uma estratégia S_{i} de A.

Estratégia fracamente dominada

A diferença entre a estratégia estritamente dominada e a fracamente dominada é trivial de ser compreendida.  A primeira, estritamente, implica que a sua estratégia S_{ii} ofereça sempre payoffs inferiores a S_{i}, enquanto a estratégia fracamente dominada (S_{ii}) nunca seja melhor que a estratégia que a domina (S_{i}), ou seja, que os payoffs de S_{ii} sejam menores ou iguais os payoffs de S_{i}.

Equilíbrio de estratégias dominantes

Em um jogo, cada jogador tem sua estratégia dominante e irá usá-la.  Ocorre, então, a combinação de estratégias dominantes de A e B e os payoffs.  Este é o equilíbrio de estratégias dominantes.

Equilíbrio de Nash

Seja a n-tupla (a_{1}^{*};a_{2}^{*};a_{3}^{*};...;a_{k}^{*}) a representação das estratégias dos k jogadores.  Esta tupla é um equilíbrio de Nash se a estratégia a_{i}^{*} é a melhor estratégia para todo o jogador i em resposta as estratégias escolhidas pelos outros jogadores.

Receita de bolo para achar o equilíbrio de Nash

  1. Encontre a estratégia que tem maior recompensa para o jogador situado na linha para cada estratégia escolhida pelos jogadores que encontram-se nas colunas. Uma vez encontrada, destaque de alguma forma esta estratégia;
  2. Encontre a estratégia que tem maior recompensa para o jogador situado na coluna para cada estratégia escolhida pelos jogadores que encontram-se nas linhas. Uma vez encontrada, destaque de alguma forma esta estratégia;
  3. Repita isso para cada linha e coluna;
  4. Sempre que a estratégia estiver marcada simultaneamente em 1 e 2, esta será um equilíbrio de Nash.

Nos artigos seguintes abordarei vários casos concretos de aplicação de teoria de jogos.

  1. [1] A paridade do 0- 0 é divisível por 2; – 0 é cercado de ímpares, a direita e a esquerda; – 0 é a soma de 0 com ele mesmo; – se existe um conjunto com 0 elementos ele pode ser dividido em dois conjuntos com iguais quantidades de elementos; e – 0 compartilha de todas as propriedades de números pares.

Continuando o artigo anterior, A evolução dos sistemas de nossa economia – Teoria Stolper-Samuelson

Mas isso tudo foi conjecturado sobre a falta de capacidade de migração dos fatores de produção. O que aconteceria se eles migrassem? Sim, os fatores de produção migram, do contrário, se não migrassem, não veriamos tantas crises devido a migrações de capital.

O Teorema de Rybczinski

Pensando nisso, Rybczinski afirmou:

“um aumento na dotação de um fator reduzirá a produção dos bens intensivos no outro fator.”

Vamos imaginar o caso dos haitianos no Brasil. Eles entraram pelo Acre. Este incremento de mão de obra provocou, por acaso, uma maior disponibilidade de mão de obra e como o país deve se especializar na produção do bem cujo fator de produção de uso intensivo seja o mais abundante no país, a especialização agora se dará em função da nova imigração de mão de obra.

Vamos imaginar um exemplo: Computadores e Queijos. Computadores (C)são intensivos em capital e Queijos (Q) são intensivos em mão de obra, para efeito de exemplo.

Agora imaginemos que os fatores envolvidos sejam:
Computadores: 3 máquinas para produzir e um funcionário e que
Queijo sejam necessários 1 máquina e 2 funcionários. Para simplificar os cálculos vamos imaginar que existem 100 trabalhadores e 100 motores elétricos.

    \begin{equation*} \left\{\begin{array}{lr} 100=3 \cdot Q_{C} + Q_{Q} \\ 100= Q_{C} +2 \cdot Q_{Q} \end{array} \end{equation*}

    \begin{equation*} 0= 2 \cdot Q_{C} - Q_{Q} \rightarrow 2 \cdot Q_{C} = Q_{Q}\\ 100 = 5 Q_{C} \rightarrow Q_{C}=20 \rightarrow Q_{Q}=40 \end{equation*}

Se entrassem, por exemplo, 20 haitianos o resultado seria diferente.

    \begin{equation*} \left\{\begin{array}{lr} 100=3 \cdot Q_{C} + Q_{Q} \\ 120= Q_{C} +2 \cdot Q_{Q} \end{array}\right\}\\ -20 = 2 \cdot Q_{C} - Q_{Q} \end{equation*}

    \begin{equation*} Q_{Q} = 2 \cdot Q_{C} + 20 \end{equation*}

    \begin{equation*} 100 = 3 \codt Q_{C} + 2 \cdot Q_{C} + 20 \end{equation*}

    \begin{equation*} 80 = 5Q_{C} \rightarrow Q_{C}=16 \rightarrow Q_{Q}=52 \end{equation*}

Logo, quando aumentou-se a quantidade de trabalhadores o número de computadores caiu de produção de 20 para 16 e o de Queijo foi de 40 para 52, provando matematicamente a afirmação de Rybczinski.

A Teoria da Diversidade dos Gostos

A Teoria da Diversidade dos Gostos é mais um postulado do que uma teoria em si, foi demonstrada por Steffan Linder. A Teoria procura endereçar, com sucesso, os fatores subjetivos do consumidor quando adquire um produto.

Um consumidor pode simplesmente querer adquirir um produto porque ele é feito em um país X, um exemplo, relógios de luxo.  Um consumidor pode querer adquirir um relógio Tissot ao invés de um Poljot porque o Tissot é feito na Suiça enquanto o Poljot é da Rússia.

De toda a forma, o consumidor precisa ter poder aquisitivo para tal e, portanto, o país teria estrutura produtiva semelhante do referido bem, no caso Rússia e Suiça.  Por contra-exemplo imagine um comércio intra-indústria, que é o nosso caso, entre Russia e Somália.  Isso não aconteceria pois as estruturas produtivas são bem distintas e não há alternativa na Somália aos produtos produzidos na Rússia.

Este é o último artigo da série que iniciei no dia 12/03/2012, totalizando 7 artigos.

Continuando o artigo anterior, A evolução dos sistemas de nossa economia – Teoria Heckscher-Ohlin (Teoria Moderna)

Tudo o que foi dito antes pressupõe o livre comércio entre as nações, mas o que acontece se existe protecionismo?

Sabemos que os EUA são o produto de computadores domésticos.  Portanto é razoável presumir que eles vendam muito.  Se o Brasil impuser tarifas protecionistas, a demanda interna se mantém constante, mas o preço irá aumentar.

Pelo comportamento da curva de oferta é esperado que com os preços altos a indústria nacional deseja cada vez mais produzir, mas para tal é preciso investimentos que carecem de dinheiro.  Para buscar dinheiro deve-se ir a mercado e sendo o juros o preço do dinheiro, com o aumento de demanda pelo capital os juros sobem.

Logo, no cenário descrito um aumento de impostos sobre a entrada de computador implica em aumento de juros.  Falando de forma mais ampla, um aumento de impostos na entrada de bens intensivos de capital provoca aumento de juros.

Se ao invés de um bem intensivo em capital fosse um bem intensivo em mão de obra, o mesmo comportamento se percebe com relação aos salários.  Com o aumento de preço a indústria nacional deseja cada vez mais produzir, mas para tal é preciso aumentar a alocação de força de trabalho, aumentar os postos de trabalho e ir a mercado recrutar pessoas para ocupá-los, e isso vai fazer com o que o valor desta mão de obra se valorize, em outras palavras, o salário aumenta.

Este efeito citado acima é o primeiro efeito, o efeito benéfico.

O efeito maléfico é que o preço dos outros fatores produtivos envolvidos caem.  Entendam que a formação do preço é a soma dos custos dos fatores de produção + margem.  Se o custo de um fator de produção sobe, assumindo que o preço fique constante e o produtor não queira sacrificar sua margem, o preço dos outros fatores irá cair.

Caso concreto, a produção de laranjas nos EUA.  Ao proteger esta produção da entrada de laranjas brasileiras no mercado americano o EUA está promovendo um aumento na renda dos agricultores, que garantem muitos votos.

Logo, podemos enunciar o teorema da seguinte forma:

“Uma tarifa aumenta a renda do fator empregado intensivamente no bem que recebe proteção”

Há que se observar uma situação traiçoeira.  Se ocorrer a tarifação de um produto intensivo em determinado fator X e o país tiver abundância no fator X, tanto no livre comércio como no protecionismo o preço do fator X vai aumentar, porém no protecionismo o salário aumenta e o preço também, e isso leva a uma falsa percepção de enriquecimento, enquanto que no livre comércio o salário aumenta mas o preço não.

Continuando o artigo anterior, A evolução dos sistemas de nossa economia – Vantagens Comparativas e Ciclo-Produto.

Dois economistas suecos desenvolveram esta teoria, Eli Heckscher e Bertil Ohlin, que também é conhecida pelos nomes Teoria Neoclassica, Teoria das Dotações ou Proporções dos fatores.  Esta teoria preenche as lacunas deixadas pelo modelo clássico de David Ricardo e de John Stewart Mill.  Lembrar que nos exemplos, a camisa e o sapato eram fixados apenas em função do dinheiro (valor homem hora de trabalho) quando na verdade há outros três fatores que precisam ser levados em conta: capital, tecnologia e recursos naturais.

A Teoria de Hecksher-Ohlin é assim enunciada:

Cada país se especializa e exporta o bem que requer utilização mais intensiva de seu fator de produção abundante.

Pela teoria clássica, o Brasil poderia produzir, por exemplo:

1 par de sapatos (S) a 1 hora de trabalho e uma camisa (C) a 2 horas de trabalho.

Com esta combinação podemos produzir qualquer combinação de camisas e sapatos que juntas somem 8 horas de trabalho, a saber: 8 S + 0 C, 6 S + 1 C, 4 S + 2 C, 2S + 3 C, 0S + 4C.

Porém, com a teoria nos diz, há mais fatores de produção envolvidos neste processo produtivo.  O que aconteceria se ao invés de apenas depender de horas trabalhadas, os bens sapato e camisa agora dependerem de funcionários e máquinas para a sua produção, desta forma:

1 camisa depende de – 1 funcionário e 1 máquina

1 sapato depende de – 2 funcionários e 1 máquina

Se minha fábrica de fundo de quintal tem 3 máquinas e 8 funcionários eu só conseguirei produzir as seguintes combinações:

0 camisas e 3 sapatos (4 funcionários ociosos e 0 máquina ociosa)

1 camisa e 2 sapatos (5 funcionários ociosos e 1 máquina ociosa)

2 camisas e 1 sapato (6 funcionários ociosos e 0 máquina ociosa)

3 camisas e 0 sapatos (7 funcionários ociosos e 0 máquina ociosa).

A conclusão é que não é possível fazer a livre mobilidade dos fatores de produção sem incorrer em perda de produtividade.  Você pode realocar seus fatores produtivos da linha de produção do bem camisa para o bem sapato, mas pode ocorrer de o deslocamento gerar perda de produtividade de camisas sem ganho na produtividade de sapatos.  Por isso que quando um país se especializa em um produto, um bem, o seu preço aumenta, porque é preciso diluir os custos de dotação dos fatores produtivos envolvidos em menos itens produzidos.

Depreende-se o comportamento matemático de que os custos unitários de produção são crescentes com a especialização devido a ociosidade dos fatores de produção.  Portanto, neste exemplo, o país em questão irá se especializar na produção de sapatos pois o sapato depende mais de funcionários do que de máquinas e o referido país dispõem mais de funcionários do que de máquinas.

Continuando o artigo anterior, A evolução dos sistemas de nossa economia – Do Absolutismo a Revolução Francesa e o Liberalismo

O caso concreto das vantagens comparativas é o seguinte.
O Brasil produz muito bem sapatos e mal camisas, os EUA produz bem camisas e mal sapatos. O Brasil, em 8 horas de trabalho, produz 4 camisas e 4 sapatos, os EUA, em 8 horas de trabalho, produz 1 sapato e 7 camisas.

Modelando a equação:

O Brasil produz 1 camisa em 1 hora de trabalho (ht). E 1 sapato também em 1 ht. Os EUA produzem 1 sapato em 6ht e 1 camisa em 2 ht. O Brasil aquí é bem mais eficiente que os EUA.

    \begin{equation*} \left\{\begin{array}{lr} 8_{HT}=1_{C} + 1_{S} (EUA)\\ 8_{HT}=4_{C} + 4_{S} (BR)\end{array} \end{equation*}

Então surge, dos EUA, a primeir proposta. Eu, EUA, produzirei apenas camisas e trocamos uma camisa por um sapato. O que acha da proposta, Brasil?

O Brasil pondera e nota que irá produzir, em suas 8 horas de trabalho, apenas sapatos, fazendo 8 sapatos em 8 horas, e irá trocar 1 sapato para receber 1  camisa, ficando com o equivalente a 8 horas de trabalho.

Por outro lado, os EUA irá produzir apenas camisas, fazendo 4 camisas em 8 horas.  Destas, uma ele irá trocar com o Brasil por sapatos e ele ficará então com 3 camisas e 1 sapato, o equivalente a 12 horas de trabalho.  Esta troca só é vantajosa pros EUA.

Então o Brasil, deveras aborrecido com a proposta americana, faz uma contra-proposta.

Eu, Brasil, só produzirei sapatos enquanto vocês, EUA, só produzirão camisas.  Até aqui minha proposta é igual a anterior, porém a troca será diferente.  Eu trocarei 1 sapato meu por 3 camisas dos EUA.  Para o Brasil seria ótimo, ficando com 7 sapatos e 3 camisas, totalizando 10 horas de trabalho.  Para os EUA seria ruim, pois ficaria com 1 sapato e uma camisa, totalizando 8 horas de trabalho.

Notemos que chegamos aos limites de troca nesta negociação.  O Brasil aceita receber mais do que 1 camisa por sapato, enquanto os EUA aceitam receber menos que 3 camisas por sapato.  A negociação deve se dar agora para encontrar um ponto em que ambos ganhem.  Vamos imaginar que a troca se dê nos seguintes termos: O Brasil troca 1 sapato por 2 camisas e os EUA 2 camisas por sapato.  Assim, o Brasil fica com 7 sapatos e 2 camisas, totalizando 9 horas de trabalho enquanto os EUA ficam com 2 camisas e 1 sapato, totalizando 10 horas de trabalho.  Ambos saem ganhando, o Brasil ganha uma hora de trabalho e os EUA 2.

Onde estará o ponto certo do termo de troca?  Em 2 como na última negociação?  Ou mais perto de que extremo?  Esta pergunta é respondida pela Teoria da Demanda Recíproca, de John Stewart Mill.  A Teoria da Demanda recíproca diz que o ponto de equilíbrio de troca se dará de acordo com a demanda brasileira pela camisa americana versus a demanda americana pelo sapato brasileiro.

Se houver mais demanda pela camisa americana, o Brasil vai aceitar se aproximar mais do seu extremo da relação de troca que os EUA.

A Teoria do Ciclo-Produto – Raymond Vernon

Esta teoria tem por premissa que a produção de bens altamente industrializados surgem em países com população de alto poder aquisitivo (uma manifestação da internacionalização da produção).  Não tem sentido conceber que uma produção de novo produto se dará sem pesquisa e demanda (e a demanda é uma abstração das idéias de renda suficiente para seu consumo e interesse em consumir).  Porque então investir em P&D sem perspectiva de demanda?  Por isso que P&D e produtos altamente sofisticados surgem em países ricos – população com alto poder aquisitivo – pois estes tem capital para estudo e pesquisa e mercado para ser abastecido por tais bens.

Do setor de P&D para o setor de produção há uma mudança no perfil de consumo de recursos para a produção do bem uma vez que neste ponto ocorre a padronização do produto.  Enquanto em P&D há muito investimento em pesquisa, mão de obra qualificada, para uma necessidade muito maior em capital e mão de obra não qualificada.  Por isso que muitas indústrias no ramo de tecnologia tem sua linha de montagem na China.

Mas para migar toda uma linha de produção para outro país, como a China por exemplo, é preciso justificar economica e financeiramente tal investimento e isso é justificável mediante análise de retornos de mercado.  Vamos imaginar que a demanda da China pelos eletrônicos americanos esteja plenamente atendida com o nível de exportação americano.  Mas esta demanda cresce e, em algum momento, a exportação americana alcança um nível tamanho que justifique levar a linha de montagem para a China, pois os custos com salário nos EUA começam a inviabilizar a escala de operação por exemplo.  Para isso acontecer é preciso definir a estratégia, será uma produção direta? Será indireta por pagamento de royalties? Será por franqueados? Será direta mediante filiais?

Então, em um momento 0 a produção de um bem era suficiente nos EUA para abastecer mediante exportações a China, em um momento 1 começa a surgir uma migração de produção para a China e esta começando a produzir abastece seu mercado interno e o excedente levado a vender para o mercado externo, EUA no exemplo.

Este é um caso mais elaborado das vantagens comparativas.  Nos EUA o capital é abundante e a produção se foca na fase do produto que precisa mais de capital e mão de obra especializada, mais cara.  Quando este bem muda de fase para a etapa de produção o capital deixa de ser tão necessário e a mão de obra não especializada – mais barata – torna-se importante e isso a China tem de sobra, então o ciclo de produção migra para a China por ter estes fatores em abundância.

Correndo em paralelo a esta etapa do ciclo, aquela mão de obra especializada e o capital para P&D não ficam parados.  Eles são alocados para pesquisar uma tecnologia nova que irá substituir a tecnologia usada na produção daquele bem que teve sua linha de produção migrada para a China.  Assim o ciclo de vida do produto fica estabelecido.

Seguindo com o que fora escrito no artigo anterior, A evolução dos sistemas de nossa economia – O Feudalismo
Agora saindo um pouco da parte puramente histórica e entrando na parte filosófico-política.

Nesta época, John Locke, que  era defensor contumaz do Metalismo, afirmou:

“a falta de moeda acarretará, não obstante, as seguintes desditosas conseqüências: primeira, preços muito baixos para nossos próprios produtos; segunda, preços muito altos para todos os produtos estrangeiros, e ambas as coisas nos trarão a pobreza já que o comerciante quer obter por suas mercadorias o mesmo aqui que em qualquer outra parte, o mesmo número de onças de prata e isto nos obriga a pagar o dobro do valor dos demais países, os quais dispõem de maior abundância de dinheiro.”

Era claro que a menção a falta de moeda dizia respeito a situação de crise, muito comum aos nossos dias de hoje, lembremos da  Crise de 1929, Crise do México, Crise dos Tigres Asiáticos, Crise da Rússia, Crise da Argentina, Crise do Subprime,…

Se um país tem muito dinheiro em circulação os seus preços sobem, se tem pouco, seus preços caem.  Além disso, Locke pregava que em situações de muito dinheiro em circulação seria mais caro comprar produtos nacionais e mais barato comprar produtos importados pois, em tese, o produto importado teria sido produzido por um país com uma menor quantidade de moeda em circulação do que a do comprador.  Na tese de Locke, o país venderia cada vez mais caro e gastaria cada vez menos.

O lado ruim da tese de Locke era que se um ganho de um grama de ouro ou prata geraria um círculo virtuoso, a perda de um grama traria o efeito inverso.  Esta perda era obtida por meio da importação. E então, importar, era crime.  Mas aquí reside o principal erro de Locke, como pensar em apenas exportar sem haver a contrapartida, que é a importação?  Era uma assimetria descabida.

Desejava-se exportar – sem importar – para que o ouro e a prata fossem acumulados.  Nestas condições era muito difícil.  Se o comércio internacional era extremamente complicado se for seguir a risca a hipótese de Locke, só havia então duas formas de acumulação metálica: minas e saques.

Mas na parte de comércio havia uma solução de contorno.  A hipótese de Locke implicava em um jogo de perde-ganha que seria contornado se o comércio entre uma Colônia e sua Metrópole fosse forçosamente representada pela parte que Perde e pela parte que Ganha, respectivamente.  Havia agora a necessidade de expandir a base monetária, e sabia-se como contornar o problema do comércio.  Surge o protecionismo e a colonização.

Havia então três pilares:

  • Importar é crime;
  • Só se aumenta o dinheiro circulante por meio de mais minas, comércio e saques; e
  • As transações comerciais são jogos de ganha-perde.

Começa então a fase de colonização, onde a colonia sempre perderia no comércio – exclusivo – com a metrópole e a responsabilidade atribuída a colônia de fornecer ouro e prata.

Como visto nos parágrafos anteriores, a teoria de John Locke era furada.  Adam Smith e David Hume argumentaram simplesmente que se os produtos de um país A, com muito dinheiro, ficam mais e mais caros, os compradores de um país B compram cada vez menos pois estes, com menos dinheiro circulante ou mesmo com uma quantidade fixa de capital, teria menos condições de pagar o preço pedido pelo país A e se veria obrigado a reduzir a quantidade comprada.  Logo, importar não era tão ruim.  Um país com pouco ouro e prata – o que justifica seus preços baixos – seria capaz de exportar mais, e isso recuperaria os estoques de capital.  Logo, John Locke estava errado.  Não havia um ciclo perpétuo virtuoso e um outro trágico.

Outro ponto que Adam Smith atacava era a questão protecionista, não só pelo aspecto  ”importar = crise”, mas também pela ineficiência atual econômica.  Para Adam Smith importar faria sentido se cada país produzisse aquilo que ele tem mais eficiência e importasse o que produzia mais ineficientemente, isso geraria um jogo de ganha-ganha.

A burguesia, inspirada pelos ideais de Adam Smith, entre outros, fica insatisfeita com o controle protecionista do Rei e em 1789 surge a Revolução Francesa, um dos divórcios mais violentos da história.  Burguesia e Rei se divorciaram de modo sangrento.  O clamor vinha do liberalismo que pregava que o Estado deveria se desvincular das transações comerciais, o não intervencionismo.  O fiel da balança, que outrora apontava para o extremo do protecionismo, agora foi para o extremo oposto.

Adam Smith defendeu os princípios do liberalismo, a saber:

  • O Bem Estar de uma nação é definido como a sua produção anual per capita;
  • A Causa das riquezas de uma nação é o trabalho humano;
  • Livre iniciativa;
  • Especialização do trabalho como aumento de produtividade;
  • O Bem Estar econômico, o mercado operando desreguladamente tenderia a um equilíbrio que maximizaria o bem estar econômico devido aos atos racionais e posturas egoístas dos agentes econômicos, como que se uma “Mão Invisível” os guiasse para este equilíbrio.

Porém, Adam Smith com a ideia liberalista posicionou-se no lugar radicalmente oposto ao protecionismo, tão nocivo quanto o protecionismo.  Deste ideário surge também a teoria das vantagens absolutas, que irá inspirar David Ricardo mais tarde.  Fundamentalmente a iniciativa privada deveria ficar livre de cabrestos do estado para empreender e se desenvolver.  A concorrência entre os empreendedores promoveria a auto-regulação do mercado e isso traria também como efeitos colaterais positivos a inovação tecnológica necessária a produção de bens melhores e a queda de preço e que o crescimento econômico promoveria, em conjunto com a divisão do trabalho, o desenvolvimento social e o bem estar.  Não foi bem assim que aconteceu, basta compreender a conjunta história.

Antes da revolução industrial havia o comércio artesanal, no qual os artesãos dominavam todas as etapas do processo produtivo.  Havia uma escala reduzida de produção e máquinas bem simples, porém nem sempre eram utilizadas.  Os trabalhadores começaram a se organizar em pequenos grupos para – em alguns casos – separar o trabalho entre eles, fosse isso uma divisão de etapas produtivas ou de produtos a serem produzidos.

Porém o capital não estava com os trabalhadores e sim com a burguesia que, financiando os pensadores renascentistas e cientistas, potencializaram a inovação tecnológica conjugando a energia a vapor ás máquinas simples já existentes.  A burguesia começa a adquirir estas máquinas novas e a empregar os então artesãos que, agora, não mais possuem domínio do lucro, do processo de fabricação e da autonomia de suas vidas e trabalho.  Novamente uma nova relação laboral começa a ser estabelecida.  Este movimento ganhou escala e rapidamente os artesãos estavam trabalhando em fábricas e indústrias, primeiramente as têxteis e de agricultura e depois outros setores se beneficiaram da maquinofatura.

Era perfeitamente cabível pensar que se os freios do estado fossem soltos, os empresários iriam acelerar de modo descontrolado para recuperar o tempo perdido enquanto estiveram sob o controle do estado e, além disso, com a superação da antiga forma artesanal de trabalho pela forma da maquinofatura os artesãos estavam precisando de renda, e para tal precisariam trabalhar.  Quem empregaria?  Os novos industriais da revolução e, como sabiam que esta revolução provera um desemprego estrutural e que o estado não regularia nada e nem interviria em nada, eram ofertadas posições de trabalho com condições desumanas no que tange a jornada de trabalho e ao salário, nova forma de pagamento e de laço laboral (o trabalho assalariado).

Outro efeito colateral da revolução industrial e do pensamento de Adam Smith foi o êxodo rural.  Como os artífices antes localizavam-se em campos e agora o emprego era ofertado pelos industriais que estavam nas cidades, isso promoveu um influxo de pessoas nos grandes centros urbanos.  Sem regulação as pessoas começaram a ocupar todo e qualquer espaço disponível nos centros urbanos e isso levou ao inchaço das grandes cidades e ocupação desordenada que trouxe graves problemas sanitários que repercutiram na saúde dos habitantes, tanto decorrentes do despejo de cada vez mais resíduos da crescente atividade industrial como do não tratamento dos despejos de resíduos humanos.

Em sua inocência, Adam Smith quis crer que o efeito do enriquecimento individual traria enriquecimento coletivo.  Isto provou-se equivocado visto que ocorreu durante períodos pretéritos, e na a revolução industrial também, um deslocamento do eixo de concentração de renda que se perpetuou e agravou ainda mais a separação social.

A Teoria das Vantagens Absolutas de Adam Smith

A teoria das vantagens absolutas prega que um país deve se especializar naquilo que produz a custo mais baixo e trocar este excedente por produtos que custem menos em outros países.  Aqui já se começa a delinear, mais maduramente, o comércio internacional.

Evoluindo esta teoria, o economista David Ricardo, postula outra teoria.

A Teoria dos Custos Comparativos, ou Teoria das Vantagens Comparativas

Esta teoria dizia que o comércio internacional será vantajoso para ambos os países mesmo que um país A produza a custos mais baixos que a nação B desde que, em termos relativos, as produtividades sejam diferentes.

Tanto a teoria das vantagens absolutas como a de vantagens comparativas estabelecem um jogo de ganha-ganha.  A especialização internacional é mutuamente vantajosa desde que as partes envolvidas no comércio internacional  foquem seus esforços na produção dos bens que sua eficiência seja comparativamente maior.  Isso, além do aspecto financeiro positivo, também lança luz sobre o uso racional dos recursos disponíveis.

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Seguindo o que foi dito no artigo anterior, A evolução dos sistemas de nossa economia – O Império Romano, vamos agora abordar o feudalismo e seu desenvolvimento e queda.

Acontece, com a queda da Roma Antiga, uma lenta e gradual mudança nas práticas econômicas e financeiras que, até então, permeavam o Império.  O esfacelamento da unidade romana criou centenas de pequenos reinos espalhados pelos mais diversos cantos do continente europeu, fruto do assentamento das diversas tribos bárbaras que, décadas antes, haviam invadido o império.  Estes novos senhores, pioneiros do Feudalismo incipiente, criaram micro-universos próprios, pedaços de terra nos quais valiam leis e moedas muito particulares. Havia, também, diversos sistemas de pesos e medidas, o que contribuía para dispersão econômica e a não unificação dos mercados.

O Rei, grande proprietário, concedia frações representativas de suas terras para grandes senhores e estes, por sua vez, concediam partes menores de suas terras concedidas pelo Rei para senhores menores – pequenos proprietários rurais – que trocavam as terras que recebiam pela obrigação de lutar a favor do seu senhor nos chamados exércitos irregulares.  As partes desta relação recebiam nomes: suserano – aquele que concedia terra; vassalo- aquele que recebia a terra.  A relação suserania-vassalagem era uma via de mão dupla.  Da mesma forma que, mediante juramento, o vassalo se comprometia a prestar ajuda militar a seu suserano, o suserano se comprometia a prestar ajuda financeira e militar ao vassalo.

Esta relação já delineava um comportamento social estanque, estamental.  Porém, por um comportamento social estanque não deve-se entender uma forma de governo estável, muito pelo contrário.  A figura do Rei no feudalismo ainda esta época não era central e tampouco estável.  O centro do poder estava na burguesia, mas esta enfrentava um desafio, enriquecer.

Vender em um feudo implicava em pagamento de taxas específicas, e as regras tornavam-se imprevisíveis. Crescer economicamente nesta realidade era um desafio.  Era o sinal claro que o poder não encontrava-se no Rei, mas na Burguesia.  A carência de uma unidade prejudicava muito a evolução das regras comerciais. Militarmente isso também era ruim, pois a burguesia tinha exércitos particulares que, se comparados ao do Rei – se houvesse – eram muito maiores.  Este era outro desafio que motivou, dentre outras causas que também motivaram – a reorganização do poder em torno do Rei novamente, mas isso ainda iria durar alguns séculos até esta nova era chegar.

Falando em termos sociais, a sociedade estamental, em termos de mobilidade social, era mais dinâmica que a sociedade de castas e menos dinâmica que a sociedade de classes.   Podia-se tornar Nobre pela aquisição do título (comprar ou merecimento/honraria), podia-se fazer parte do clero ao se juntar a igreja, podia-se deixar de ser vilão ao jurar servidão a igreja ou a um nobre, por exemplo.  Isso não quer dizer que fosse fácil, na verdade não era, mas era possível.

Além da relação servil, os servos estavam presos também pelas obrigações feudais como talha, corvéia, banalidade, mão-morta, taxa de justiça, capitação, taxa de casamento e por ai vai…No final das contas a situação do servo não era tão diferente da do escravo.  Este não tinha motivação alguma para inovar no seu trabalho pois, se mais este produzisse, mais deste seria sugado pelo seu senhor.  A produtividade era muito baixa pois, por conta das obrigações feudais pouco sobrava para si uma vez que os senhores feudais lhes arrancava tudo, e os servos muitas vezes não tinham como pagar as obrigações, ainda mais as gerações seguintes que viam-se obrigadas a pagar a mão-morta.  Era claramente uma organização sócio-econômica que estava fadada a uma grande mudança.

Estas mudanças começaram a tomar forma com as navegações, que tiveram também um papel importante no desenvolvimento do mercantilismo, levando mercadorias – tipicamente matérias primas e alguns beneficiamentos destas – ao oriente.  Novamente uma economia monetária com prestação de serviços básico (frete), ganhos de arbitragem e lucros econômicos surge.  Ao longo do tempo a tecnologia permite que as navegações lancem-se aos Oceanos e desbravem o que foi então chamado Novo Mundo.  Esta foi a época das Grandes Navegações.

A burguesia – enriquecendo com as navegações mas almejando regras para unificar o comércio e ganhar mais dinheiro decorrente de um ganho de escala promovido pela unificação –  e o Rei – carecendo de poder militar e centralização do poder em sua figura – juntam-se para resolver suas diferenças.

Surge então o Absolutismo, com o poder centralizado no Rei e regras unificadas para permitir o desenvolvimento do Mercantilismo e o Metalismo.

 

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